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SETENTA E POUCOS CONTOS, CINCO ANOS E POUCO - Crítica Antonio Prata

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Idioma: Português
Editora: Companhia das Letras
ISBN-10: 8535927689
Edição: 1° / Ano: 2016 / Páginas: 232
Mais que qualquer escritor em atividade, Antonio Prata é cultor do gênero - consagrado por gigantes do porte de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Nelson Rodrigues - que fincou raízes por aqui- a crônica. Pode ser um par de meias, uma semente de mexerica, uma noite maldormida, a compra de um par de óculos, a tentativa de fazer exercícios abdominais. Quanto mais trivial o ponto de partida, mais cheio de sabor é o texto, mais surpreendente é a capacidade de extrair sentido e lirismo da aparente banalidade. Trinta e poucos traz crônicas selecionadas pelo próprio autor a partir de sua coluna na Folha de S.Paulo. Um mosaico com os melhores textos do principal cronista do Brasil.

Vocês estão certos, “É pavê”, para se coçar e regozijar com a nobre missão que tivemos, de analisar e pontuar alguns - ou muitos - aspectos que saltam ao longo da obra de “Um escritor, um escritor!”. E seguindo a risca o ditado “Tal pai, tal filho”, não é exagero fazermos os mais diversos elogios ao filho de um dos maiores autores e dramaturgos do país, Mario Prata. E vale lembrar que tudo o que foi dito ao longo de meses como “Abril, maio, junho” são “Recordações” que podem lhe trazer muita felicidade. 

Trinta e Poucos narra, em acontecimentos cotidianos e peculiares da vida, o que o renomado autor Antonio Prata publicou durante cinco anos na Folha de São Paulo. Na visão do cronista, situações simples ganham esplendor e peculiaridade, fazendo com que os leitores não só se interessem por sua escrita, mas também sintam proximidade e afinidade em relação aos acontecimentos que ele narra.

A obra possui em torno 70 crônicas e diferentemente do seu livro “Nu, de botas” que abraça uma seleção muitas vezes cômica, e por vezes, aleatória, podemos dizer que Antonio nos apresenta a sua intimidade. Das impressões digitais, as meias que somem do nada, seguimos sua escrita - com alguns traços de ironia -, sobre fatos triviais ao longo das duzentos e vinte e seis páginas que completam o livro da Companhia das Letras.
[...] trinta e poucos. Ainda temos o vigor da juventude – o vigor necessário pra solar uma guitarra imaginária, pelo menos –, mas já deixamos pra trás o pudor da adolescência – pudor de contrariar as diretrizes do grupo, de não se encaixar na moldura da época. Até os vinte e nove você ainda tem esperanças de se tornar outra pessoa. Depois dos trinta, você simplesmente aceitar ser quem é, relaxa e goza. [...] p.68
Um dos pontos positivos está em torno da escrita leve e comum que o autor nos proporciona. Não existe nada de sobrenatural no que ele conta, e o fato de conseguirmos - muitas vezes - nos colocar em seu lugar e até imaginar um desfecho para cada situação, faz com que, a leitura se torne muito mais cativante e fluida, que pode ser finalizada em questão de poucas horas. 

Além disso, é extremamente curioso o fato do próprio autor ser o personagem principal do que narra, pois, além das experiências do seu dia a dia, podemos acompanhar seu diálogo com outros personagens. Como o caso de Daniel, seu filho ainda bebê, que nos emociona recebendo uma carta de seu pai. 
Mas acontecimentos extraordinários são raros, como a própria palavra extraordinário já diz, ai a vida passa e a gente não aproveitou. Pois hoje você me fez aproveitar a vida, Daniel, por isso resolvi te escrever, agradecendo. p. 221

Fazendo jus ao nome que está em sua capa, estamos submersos em crônicas divertidíssimas sobre essa fase da vida de Antonio e a forma como ele enxerga os acontecimentos ao seu redor. E todas seguem esse tom leve sobre a tal idade dos trinta e poucos. As gargalhadas não podem ser controladas e independente do lugar que você estiver, sugerimos cuidado, pois, muitas vezes eles saem involuntariamente e em tons muito altos. 

Contudo, mesmo sendo um livro tão alegre, Trinta e Poucos nos trás uma reflexão, principalmente em relação a forma como passamos a agir com o passar do tempo. Como você enxergará a vida aos trinta e poucos anos? Como irá lidar com as situações? E é dessa forma que ele segue, divertindo, chocando e fazendo com que o leitor reflita sobre tais acontecimentos. 

Observando os aspectos técnicos, podemos dizer que o que lemos está entre contos e textos literários muito bem equilibrados que proporcionam a leveza das histórias e a seriedade do factual - mesmo que esse seja narrado em nuances da sua própria vida. 

Textos que, de uma forma geral, não ultrapassam o limite de duas páginas, dão as crônicas o tom prático e direto que é fundamental aos periódicos. Também podemos citar os títulos curtos que se limitam à quatro palavras, reafirmando o caráter de destaque que o autor quer dar ao assunto principal tratado - assentado em cada relato. 

Antonio usa também de diversas referências como: Satisfaction dos Rolling Stones, Clark Kent e até mesmo, o famoso ator Sylvester Stallone, que são utilizadas de forma espontânea e contínua. Fazendo com que, o autor consiga tanto mostrar ligação com a sua vida, como também aproximar o leitor e ilustrar o raciocínio. 
Libera a Guitarrinha! [...] De uns tempos pra cá, deram pra chamar a firula de air guitar e existe, inclusive, o “Air Guitar World Championship” [...] quando os primeiros acordes de “Satisfaction” soam pelas caixas da festa [...]. p. 67
No final, percebemos que, todas as particularidades técnicas utilizadas pelo autor no desenvolvimento das crônicas, atuam reafirmando que suas obras caminham dentro de um tempo e espaço muito bem delineados e apresentados a quem o acompanha. 

Esse pode ser portanto, o livro que traduz da forma mais sincera a identidade e tudo que compõe a percepção do mundo de Antonio. E mesmo que seja extremamente difícil esperar, será um prazer aguardar outros cinco anos se o resultado final for uma obra com tanta qualidade e emoção. Livro mais do que recomendado!


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