Post Top Ad

18 outubro

SETENTA E POUCOS CONTOS, CINCO ANOS E POUCO - Crítica Antonio Prata

by , in
Resultado de imagem para trinta e poucos


Idioma: Português
Editora: Companhia das Letras
ISBN-10: 8535927689
Edição: 1° / Ano: 2016 / Páginas: 232
Mais que qualquer escritor em atividade, Antonio Prata é cultor do gênero - consagrado por gigantes do porte de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Nelson Rodrigues - que fincou raízes por aqui- a crônica. Pode ser um par de meias, uma semente de mexerica, uma noite maldormida, a compra de um par de óculos, a tentativa de fazer exercícios abdominais. Quanto mais trivial o ponto de partida, mais cheio de sabor é o texto, mais surpreendente é a capacidade de extrair sentido e lirismo da aparente banalidade. Trinta e poucos traz crônicas selecionadas pelo próprio autor a partir de sua coluna na Folha de S.Paulo. Um mosaico com os melhores textos do principal cronista do Brasil.

Vocês estão certos, “É pavê”, para se coçar e regozijar com a nobre missão que tivemos, de analisar e pontuar alguns - ou muitos - aspectos que saltam ao longo da obra de “Um escritor, um escritor!”. E seguindo a risca o ditado “Tal pai, tal filho”, não é exagero fazermos os mais diversos elogios ao filho de um dos maiores autores e dramaturgos do país, Mario Prata. E vale lembrar que tudo o que foi dito ao longo de meses como “Abril, maio, junho” são “Recordações” que podem lhe trazer muita felicidade. 

Trinta e Poucos narra, em acontecimentos cotidianos e peculiares da vida, o que o renomado autor Antonio Prata publicou durante cinco anos na Folha de São Paulo. Na visão do cronista, situações simples ganham esplendor e peculiaridade, fazendo com que os leitores não só se interessem por sua escrita, mas também sintam proximidade e afinidade em relação aos acontecimentos que ele narra.

A obra possui em torno 70 crônicas e diferentemente do seu livro “Nu, de botas” que abraça uma seleção muitas vezes cômica, e por vezes, aleatória, podemos dizer que Antonio nos apresenta a sua intimidade. Das impressões digitais, as meias que somem do nada, seguimos sua escrita - com alguns traços de ironia -, sobre fatos triviais ao longo das duzentos e vinte e seis páginas que completam o livro da Companhia das Letras.
[...] trinta e poucos. Ainda temos o vigor da juventude – o vigor necessário pra solar uma guitarra imaginária, pelo menos –, mas já deixamos pra trás o pudor da adolescência – pudor de contrariar as diretrizes do grupo, de não se encaixar na moldura da época. Até os vinte e nove você ainda tem esperanças de se tornar outra pessoa. Depois dos trinta, você simplesmente aceitar ser quem é, relaxa e goza. [...] p.68
Um dos pontos positivos está em torno da escrita leve e comum que o autor nos proporciona. Não existe nada de sobrenatural no que ele conta, e o fato de conseguirmos - muitas vezes - nos colocar em seu lugar e até imaginar um desfecho para cada situação, faz com que, a leitura se torne muito mais cativante e fluida, que pode ser finalizada em questão de poucas horas. 

Além disso, é extremamente curioso o fato do próprio autor ser o personagem principal do que narra, pois, além das experiências do seu dia a dia, podemos acompanhar seu diálogo com outros personagens. Como o caso de Daniel, seu filho ainda bebê, que nos emociona recebendo uma carta de seu pai. 
Mas acontecimentos extraordinários são raros, como a própria palavra extraordinário já diz, ai a vida passa e a gente não aproveitou. Pois hoje você me fez aproveitar a vida, Daniel, por isso resolvi te escrever, agradecendo. p. 221

Fazendo jus ao nome que está em sua capa, estamos submersos em crônicas divertidíssimas sobre essa fase da vida de Antonio e a forma como ele enxerga os acontecimentos ao seu redor. E todas seguem esse tom leve sobre a tal idade dos trinta e poucos. As gargalhadas não podem ser controladas e independente do lugar que você estiver, sugerimos cuidado, pois, muitas vezes eles saem involuntariamente e em tons muito altos. 

Contudo, mesmo sendo um livro tão alegre, Trinta e Poucos nos trás uma reflexão, principalmente em relação a forma como passamos a agir com o passar do tempo. Como você enxergará a vida aos trinta e poucos anos? Como irá lidar com as situações? E é dessa forma que ele segue, divertindo, chocando e fazendo com que o leitor reflita sobre tais acontecimentos. 

Observando os aspectos técnicos, podemos dizer que o que lemos está entre contos e textos literários muito bem equilibrados que proporcionam a leveza das histórias e a seriedade do factual - mesmo que esse seja narrado em nuances da sua própria vida. 

Textos que, de uma forma geral, não ultrapassam o limite de duas páginas, dão as crônicas o tom prático e direto que é fundamental aos periódicos. Também podemos citar os títulos curtos que se limitam à quatro palavras, reafirmando o caráter de destaque que o autor quer dar ao assunto principal tratado - assentado em cada relato. 

Antonio usa também de diversas referências como: Satisfaction dos Rolling Stones, Clark Kent e até mesmo, o famoso ator Sylvester Stallone, que são utilizadas de forma espontânea e contínua. Fazendo com que, o autor consiga tanto mostrar ligação com a sua vida, como também aproximar o leitor e ilustrar o raciocínio. 
Libera a Guitarrinha! [...] De uns tempos pra cá, deram pra chamar a firula de air guitar e existe, inclusive, o “Air Guitar World Championship” [...] quando os primeiros acordes de “Satisfaction” soam pelas caixas da festa [...]. p. 67
No final, percebemos que, todas as particularidades técnicas utilizadas pelo autor no desenvolvimento das crônicas, atuam reafirmando que suas obras caminham dentro de um tempo e espaço muito bem delineados e apresentados a quem o acompanha. 

Esse pode ser portanto, o livro que traduz da forma mais sincera a identidade e tudo que compõe a percepção do mundo de Antonio. E mesmo que seja extremamente difícil esperar, será um prazer aguardar outros cinco anos se o resultado final for uma obra com tanta qualidade e emoção. Livro mais do que recomendado!


01 outubro

A CRONISTA DA ALMA FEMININA E A SOCIEDADE LÍQUIDA DE BAUMAN - Crítica Martha Medeiros

by , in
Coisas da vida



Nome: Coisas da Vida
Autora: Martha Medeiros
Número de Páginas: 240
Editora: L&PM
Nas crônicas de Martha Medeiros há espaço para todas as normalidades e todas as "esquisitices" que caracterizam o Homo sapiens modernus: o sentimento de frustração, o tic-tac do relógio biológico feminino, a necessidade de dinheiro versus a necessidade de sossego, mulheres que decidem não ter filhos, o progressivo apagamento das fronteiras entre um e outro sexo, máquinas de provocar orgasmos, choros, filmes, livros e músicas, a delícia e a tragédia de amar duas pessoas ao mesmo tempo, a delícia e a tragédia de não amar ninguém e tantas outras coisas da vida.



“Coisas da vida”, escrito por Martha Medeiros, é um compilado de crônicas publicadas originalmente nos jornais Zero Hora e O Globo entre Setembro de 2003 e Setembro de 2005. E, como o próprio título sugere, essas histórias tratam das relações humanas “e tudo de mágico e de trágico que elas representam numa vida”.

Desde o lançamento do livro, se passaram 12 anos, entretanto, os temas abordados pela autora permanecem extremamente atuais, afinal, a existência é um tema recorrente em uma série de gêneros literários. Mas, o que faz dessas crônicas de Martha Medeiros especiais, é a forma sensível e humanizada de falar sobre todo e qualquer assunto no que diz respeito ao relacionamento entre pessoas e a vida. 

Temas como traição, família, casamento, amizade e cotidiano são abordados e discutidos de forma leve e reflexiva em suas crônicas - considerando o contexto de pós-modernidade nos quais elas foram escritas. Enquanto escritora, Martha reafirma nessa obra o título de cronista da alma feminina, ao trazer em suas temáticas, o olhar e a representação de uma minoria que está em constante ritmo de transformação e reconhecimento de papéis na sociedade atual, ao considerar as questões de igualdade de gênero, maternidade e casamento. 

Quando se fala sobre pós-modernidade, o sociólogo Zygmunt Bauman dispensa apresentações. Ele é o responsável pelo conceito de “modernidade líquida”, que se refere a fragilidade e insegurança das nossas relações com as coisas e as pessoas numa sociedade repleta de contradições internas. Para Bauman, o principal traço da pós-modernidade advém da batalha entre a liberdade individual em oposição à segurança projetada em torno de uma vida estável. 

Escritas no início da era da globalização - fenômeno que consiste no encurtamento das distâncias por meio da união econômica, política, social e cultural - as crônicas de Martha aparecem na qualidade de um retrato despretensioso e leve dessa sociedade que Bauman conceituou como sociedade líquida. A fluidez dos relacionamentos, a busca constante pela satisfação individual, os prós e contras da tecnologia e da globalização e, por fim, os dilemas femininos. 

Ao longo do livro, é possível notar a presença da batalha entre a liberdade e a vida estável em várias instâncias. Se em “Interrompendo as buscas”, Martha defende a instituição casamento e as maravilhas propiciadas pela calma de um amor tranquilo, ao passar algumas páginas, chegamos na crônica “Esconderijo Conjugal”, que faz uma crítica ao casamento.
A solidão, que sempre pareceu nos proteger, na verdade nos coloca no centro das atenções, permite que coloquem o dedo nas nossas feridas. Já o casamento nos tira da prateleira, nos resguarda, nos esconde tão bem e tão sem alarde que a gente nem percebe que está escondido. p. 91
Outras contradições aparecem quando se trata do feminino. Considerando o passado em que as mulheres estavam destinadas a servir seus maridos e filhos em casa, as histórias de Medeiros trazem as novas contradições inerentes às mulheres contemporâneas nessa luta entre liberdade e vida estável. Qual seria a melhor escolha: monogamia ou poligamia? maternidade ou carreira? Além do processo de desconstrução de padrões de beleza e pensamentos machistas. 

Tudo isso aparece de forma despretensiosa, leve e sensível. Já que todas as contradições apresentadas, são comuns do homem moderno. A sensação que dá, é que cada história é feita para nós, ou para alguém que conhecemos. Uma espécie de divã da vida moderna. Afinal, por diversas vezes, temos a impressão que várias dos nossos devaneios e esquisitices foram ali representadas. Ao percorrer por uma série de temas, sem a intenção de doutrinar, ou dar soluções, Martha consegue estimular o pensamento e a reflexão. Também consegue provocar sorrisos, e, porque não, o choro? 

Os curtos relatos escritos em primeira pessoa se aproxima de uma conversa informal, por meio do uso frequente dos pronomes você e nós, para estabelecer uma relação com o leitor. E, por vezes, a leitura de outros autores é o gatilho de Medeiros para uma boa crônica. É o caso de “Estrangeirismos”, que despontou da leitura do dicionário de palavras & expressões estrangeiras, escrito por Luiz Augusto Fischer. Cineastas também não ficam para trás, e, por diversas vezes, serviram de inspiração para as histórias da autora, ficando também para os leitores, boas recomendações. Woody Allen aparece como favorito de Martha e é citado em várias ocasiões. Por outras vezes, a observação de um motoboy ao ver os fogos de artifícios pela primeira vez, é o suficiente para fazer a gente refletir sobre as coisas que realmente importam nessa vida. 

Ao prezar pela atemporalidade e ao extrair o comportamento social da era pós moderna, “Coisas da Vida” cumpre o seu papel de crônicas que servem como mecanismo para entender como pensavam uma sociedade em um determinado tempo-espaço.

Post Top Ad

Instagram